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27 DE AGOSTO

quarta-feira, 7 de dezembro de 2016

Três mitos sobre os primeiros cristãos

Não, eles não tinham bíblias nem se escondiam nas catacumbas.

A cultura pop das últimas oito décadas, através da reconstrução de fatos supostamente históricos apresentada pela literatura, pelo cinema e pela televisão, influenciou bastante na construção da imagem que temos hoje dos primeiros cristãos. Mas é claro que outras fontes posteriores ao livro dos Atos dos Apóstolos, bem como boa parte da tradição oral, também colocaram o seu grão de areia na elaboração daquilo que muitos pensam que foram as comunidades cristãs primitivas.
A professora Candida Moss, que dá aulas de Literatura Neotestamentária e Cristianismo Primitivo da Universidade de Notre Dame, esclareceu uma série de fatos sobre essas primeiras comunidades num recente artigo publicado pelo Daily Beast:

1 – Não, os primeiros cristãos não tinham bíblias “cristãs”

No início, as comunidades cristãs só contavam com a Bíblia judaica. Escrever os textos incluídos no Novo Testamento levou quase um século desde a morte de Jesus – e o processo de entender e agrupar esses livros para identificá-los como canônicos demorou mais ainda: muitos dos livros do Novo Testamento ganharam autoridade durante o século II, mas só em 367 é que se completou a lista de livros que corresponde à coleção que conhecemos hoje como “Novo Testamento”. Antes disso, simplesmente havia diferentes cânones. Alguns deles, como o do herege Marcião, do século II, eram muito menores, enquanto outros, como os utilizados pela Igreja etíope, eram mais longos.

2 – Não, eles não eram “cristãos” (!)
Como explica a professora Moss, “Jesus e seus discípulos eram judeus. Suas escrituras eram judaicas, seus rituais religiosos eram judaicos e sua concepção do Messias era judaica”. É verdade que o Evangelho de João traz algumas afirmações bastante radicais a propósito do povo judeu, e que Paulo não fez os gentios convertidos adotarem os costumes e ritos judaizantes das comunidades judias – nem sequer a circuncisão; mas também é verdade que nem Paulo nem qualquer dos evangelistas usa o termo “cristão” para descrever a si mesmo nem para se dirigir às comunidades de crentes.
O livro dos Atos dos Apóstolos afirma que o termo “cristão” foi usado pela primeira vez em Antioquia no ano 60. Os especialistas têm cada vez mais convicção, porém, de que o livro dos Atos dos Apóstolos foi escrito por volta do ano 115 – e nenhum dos evangelhos ou das epístolas escritas entre 60 e 80 usa a palavra “cristão”. Para o mundo do primeiro século, os seguidores de Jesus eram um grupo dentro do judaísmo.

3 – Não, eles não se escondiam nas catacumbas

Supor que os primeiros cristãos se esconderam nas catacumbas para escapar da perseguição é um erro muito difundido. É verdade que os cristãos se reuniam ocasionalmente nas catacumbas para prestar homenagem aos seus familiares e amigos falecidos, celebrando banquetes especiais que, segundo a professora Moss, eram adaptações de alguns rituais funerários pagãos romanos, além de contarem histórias que recordassem os fiéis já mortos (eventos da história da vida de algum mártir célebre, por exemplo). Eles também celebravam ali a Eucaristia em pequenos grupos. Mas os cristãos não se esconderam nas catacumbas: aliás, se tivessem tentado esconder-se dentro delas, teriam sido facilmente descobertos. A lenda que diz que os cristãos “se escondiam” nas catacumbas é uma invenção dos guias turísticos, que a imaginaram como recurso para tornar as catacumbas mais atrativas turisticamente.

Publicado originalmente no site: Aleteia

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