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sábado, 23 de julho de 2016

Revolução sexual e violência sexual: uma relação que o laicismo finge que não existe

A chamada “liberação sexual”, sem limites, acelerou a redução da
mulher a objeto.

Em junho de 2013, no meio de uma onda histórica de protestos contra a corrupção brasileira e seus efeitos devastadores no bolso e na paciência dos cidadãos, foi sancionada, quase como notícia secundária, a lei que tornou o feminicídio um crime hediondo no Brasil.

É uma medida necessária, mas, passados mais de 3 anos, a mídia do país não para de noticiar assassinatos de mulheres, estupros coletivos e abusos sexuais. Parece claro que a legislação, sozinha, não resolve as manifestações mais extremas de um problema que não é meramente “disciplinar”, mas essencialmente de valores; e é vasta, muito vasta a gama de valores questionáveis envolvidos no fenômeno sociológico que leva hordas de seres humanos a se comportarem e a tratarem os outros como objetos de prazer descartável.
Poucos meses antes da aprovação da lei brasileira do feminicídio, a revista norte-americana Violence and Victims tinha publicado uma pesquisa feita pela Universidade da Geórgia, também dos Estados Unidos, sobre a relação entre a indústria da pornografia e a violência contra as mulheres. A pornografia é apenas um dos “valores” em que a nossa cultura atual não vê maiores consequências – pelo contrário, é exaltada como um “direito”, como um inofensivo recurso de lazer que não prejudica nem incomoda ninguém…
A pesquisa, como seria de esperar, foi amplamente ignorada pela mídia.
Mas o estudo norte-americano não passou despercebido para o médico e sexólogo Vincenzo Puppo, do Centro Italiano de Sexologia. Em entrevista ao jornal La Stampa, ele explicou que a pornografia causa dependência e que esse vício leva à violência:
A visualização contínua e repetida dos órgãos genitais masculinos e femininos vai diminuindo progressivamente a capacidade de excitação mental. Quando um estímulo sensorial é repetido continuamente, ele vai deixando de ser excitante com o passar do tempo. Assim, o cérebro passa a exigir estímulos sexuais mais fortes. Da pornografia ‘normal’, a pessoa passa, por exemplo, a consumir imagens de estupros, de outras violências sexuais, de sadomasoquismo, de sexo com animais, com crianças…”.
E não para por aí. A repetição contínua da visualização dessas novas imagens leva o cérebro a ir se viciando nelas também. Da dependência doentia de mais e mais cenas degradantes, associadas a excitação e prazer pessoal, tende-se ao impulso não menos doentio de passar aos atos. Assim, quando o ambiente da “mera” visualização de pornografia pesada deixa de ser suficiente para “desafogar” o vício, o dependente pode acabar explodindo em atos de violência não apenas contra mulheres, mas também, não raro, contra homens e, o que é mais terrível ainda, contra meninas e meninos.
Os alertas de especialistas em questões como esta não costumam fazer sucesso na cultura laica do “liberou geral”, por motivos óbvios: não se quer admitir que todo excesso tem consequências. É mais ou menos a mesma visão permissiva e leniente que se tem quanto ao álcool, transferindo-se a responsabilidade pela epidemia de consumo de bebida entre adolescentes e jovens para contextos externos à consciência e à vontade deles. No tocante à hipersexualização da cultura laica, as mesmas pessoas que apontam o dedo com fúria contra o “modelo machista repressivo” fecham os olhos, conivente e hipocritamente, para a relação avassaladora entre a “revolução sexual” e a transformação ainda mais acelerada de seres humanos em objeto de prazer doentio.
Numa sociedade voluntariamente formada por pessoas-objeto, é um tanto utópico exigir que as pessoas não sejam tratadas como… objetos.

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