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27 DE AGOSTO

quinta-feira, 16 de junho de 2016

A coisa-mulher, a coisa-homem, a coisa-estupro… E a pessoa?

A “coisa” não vai melhorar até aprendermos certas “coisas” sobre “não ser coisas”.

Os estupros, inclusive os “coletivos”, fazem parte quase “corriqueira”, há vários anos, das notícias internacionais sobre países como a Índia e dezenas de nações da África. Nos últimos meses, a realidade e extensão deste horror tem sido desmascarada também no Brasil, país com acúmulo de casos clamorosos e bastante mais numerosos do que até agora se supunha.
O fenômeno pavoroso do estupro também grassa em países considerados desenvolvidos: nos Estados Unidos, por exemplo, gerou intensa comoção nacional o recente julgamento do jovem Brock Turner, que estuprou uma jovem estudante inconsciente no campus da Universidade de Stanford.

Vamos começar por este caso e por uma constatação óbvia.
O que Brock Turner fez, mesmo para quem não acredita em Deus nem aceita a noção de pecado, pode ser entendido com relativa facilidade como um ato de pecado: ele tratou um ser humano como coisa.
Por meio do personagem Granny Weatherwax, do seu romance “Carpe Jugulum”, o escritor Terry Pratchett reflete:
– E o pecado, meu jovem, é quando você trata pessoas como coisas. Incluindo a si mesmo. Isto é o pecado. – É muito mais complicado que isso… – Não. Não é. Quando as pessoas dizem que as coisas são muito mais complicadas, é sinal de que elas estão preocupadas com o risco de não gostarem da verdade. Pessoas reduzidas a coisas: é aí que tudo começa. – Ah, mas eu tenho certeza de que existem crimes piores. – Mas eles sempre começam quando se pensa nas pessoas como coisas.
Terry Pratchett é ateu declarado. Mesmo assim, ele aceitou a noção de pecado e identificou um dos seus aspectos mais precisos.
O jovem Brock Turner apresentou a si mesmo como “vítima da cultura da festa em Stanford”, cultura essa que o teria levado a ver uma pessoa como coisa e a usá-la de forma criminosa.
O pai de Brock, Dan A. Turner, realçou a raiz desse pecado ao revelar que ele também via não só a vítima como coisa, mas ainda ao próprio filho como coisa; uma coisa que pertencia a ele e que, portanto, devia ser tratada com cuidado apesar daquele “ato de 20 minutos” – ele se referia a nada menos que o estupro.
“A vida dele (do filho) nunca mais vai ser a que ele sonhou e trabalhou tão duro para conseguir”, escreveu Dan Turner, argumentando que o rapaz deveria receber liberdade condicional. “(A prisão) é um preço alto demais por um ato de 20 minutos em seus 20 anos de vida”.
Uma das razões que levou o caso a chamar a atenção mundial foi que, depois de um júri condenar Brock Turner por seus crimes, o juiz Aaron Persky, citando a idade do rapaz e a sua falta de antecedentes criminais, concedeu-lhe uma sentença considerada branda, de seis meses na cadeia local, porque “a pena de prisão teria um impacto severo sobre ele (…) Eu acho que ele não vai ser um perigo para os outros”.
Acontece que Brock Turner já foi, claramente, um perigo para uma pessoa. Uma pessoa não é suficiente?
O juiz Aaron Persky também pecou. Ele não viu uma jovem mulher vitimada de maneira tremendamente indigna pelas mãos de Brock Turner. Ele viu um número. Ele viu um dado de vitimização criminal. Sua sentença não esteve em sintonia com uma pessoa, mas com uma coisa.
Há nesta história muitas manifestações do fenômeno que nos leva a ver pessoas como coisas, mas isto não deve surpreender-nos: é a tendência social. As faculdades veem os potenciais alunos como coisas, como números que vão satisfazer as suas várias cotas de necessidades: as coisas-atletas, as coisas-fêmeas, as coisas-minorias. A sociedade incentiva as mesmas polarizações: não incentiva que as pessoas vejam o próximo como um ser humano com dignidade intrínseca, e sim como uma coisa-gênero, uma coisa-mortadela, uma coisa-coxinha, uma coisa-número. As pessoas são vistas, largamente, como categorias às quais devemos opor-nos ou apoiar; como objetos a serem esmagados ou explorados. As crianças são induzidas a se tornarem coisas de sucesso mediante um sem-fim de atividades e treinamentos que as façam ser aceitas nas melhores escolas, círculos e empresas; que as transformem em coisas capazes de dar orgulho aos seus pais.
“Querido, querida, você pode ser qualquer coisa e conseguir tudo”: a esta narrativa, patentemente falsa, é preciso opor a eficácia do “não”: “Não, querido, não, querida, você não pode ser ‘qualquer coisa’ nem pode conseguir tudo. Mas pode conseguir a sua própria parcela de meios que ajudem você a ser a melhor pessoa que você pode e deve ser” – em relação ao seu próprio potencial e grandeza, não em comparação com a aparente grandeza e potencial dos outros.
A coisificação do outro é o exemplo mais gritante daquilo que nunca se pode “conseguir” como meio próprio. Até aprendermos isto de verdade, como sociedade, as “coisas” não tenderão a melhorar.
Mas há algo ainda mais básico a corrigirmos: a coisificação de nós mesmos. Se continuarmos alimentando o hábito de pensar em nós como meras coisas (e na humanidade como uma “coisa odiosa genérica” em vez de uma família de pessoas que precisam ser ajudadas na sua realização pessoal plena), a mudança será muito mais difícil.
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Adaptado do texto de Elizabeth Scalia Brock Turner, His Father, the Judge and the ThingVictim.

Fonte: Aleteia

 

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